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Um diretor da Ópera de Paris quer fazer do Rio um polo lírico – e traz estrelas para isso

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Um diretor da Ópera de Paris quer fazer do Rio um polo lírico - e traz estrelas para isso

RIO –  Dentro da Catedral Metropolitana do Rio , o grego Ílias Tzempetonidis está preocupado com a chuva.

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Um assessor da Igreja lhe mostra um vídeo com poças em torno do Cristo, o que significa que as 40 crianças de uma escola municipal da Taquara terão de cantar ali no altar, em vez de subir ao monumento

— É uma pena, elas estavam tão animadas — diz Ílias a Michael Fabiano, tenor americano que canta nesta domingo, às 17h, no Teatro Municipal, pela Série Grandes Vozes. Em setembro, será solista da “Manon“, de Massenet, no Metropolitan Ópera de Nova York. Em outubro, será o “Don Carlo”, de Verdi, na Ópera de Paris

Ensaio para o concerto da série “Grandes Vozes no Rio de Janeiro”, com a Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal do Rio, sob regência de Ira Levin – Imagens Divulgação/Teatro Municipal Entretanto, não é possível dizer que as crianças, muitas da Cidade de Deus, se desanimam. Cercam o tenor para tirar selfies. Um menino pede atenção: quer cantar à capela

Cenas assim já aconteceram em julho, quando o italiano Vittorio Grigolo veio ao Rio também trazido por Ílias, que, aos 50 anos, é diretor de casting da Ópera de Paris desde 2014 — ou seja, é o responsável por escolher os cantores para algumas das melhores produções do mundo, algo que ele já fizera no Scala de Milão entre 2010 e 2013. A experiência o tornou íntimo dos mais eletrizantes cantores do planeta , da russa Anna Netrebko ao alemão Jonas Kaufmann. Não é exagero dizer que ele é o grego mais influente na ópera desde Maria Callas. Agora, Ílias traz alguns amigos ao Municipal para essa epopeia — uma “Ilíada”? — que pode criar um polo lírico no Rio

PUBLICIDADE Recriação da Academia Bidu Sayão O projeto se apoia em três pilares. O mais vistoso é a série Grandes Vozes — quatro recitais já integrados à programação oficial do Municipal, com a orquestra do teatro regida pelo americano Ira Levin, futuro maestro titular, conforme adiantou o colunista Ancelmo Gois, do GLOBO

Os outros dois são educacionais. Para as escolas municipais com aulas de música, Ílias leva o artista para um ensaio; depois, há uma apresentação num lugar icônico da cidade. Por último, uma masterclass gratuita para cantores cariocas, que aprendem a visão e os truques de quem está nos olimpos da ópera

Uma das condições para continuarmos a série é a reativação de uma academia de canto lírico ligada ao Municipal — diz Ílias ( a Academia Bidu Sayão foi dissolvida em 2018, na gestão Pezão )

Entender por que a iniciativa chegou ao Rio que acumula crises desafia a compreensão. Ílias, porém, vem todos os anos desde que conheceu a cidade, em 2003

Passo o Réveillon aqui, alugo um apartamento em Ipanema, vou à praia, tomo meu açaí, vou à academia. O Rio se tornou um lugar terapêutico para mim. E eu senti que, em algum momento, deveria devolver algo. Como tenho boa relação com os cantores e eles confiam em mim, toparam

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Há três anos, começou a conversar com seu amigo austríaco, o engenheiro Stefan Ganglberger, que mora no Rio, sobre um trabalho que unisse ópera — também paixão de Stefan — com transformação social. O amigo pediu tempo:

— Não me sentia pronto na época, mas tinha gostado da ideia. Até que, no ano passado, pude mapear as oportunidades no Rio e entender como formatar o projeto de forma a também inspirar talentos nas comunidades. A vida do Ílias é descobrir cantores, o mais importante do projeto (entre nós dois) é ele

Tudo isso é executado na raça e ainda sem patrocínio, um do-it-yourself de dois profissionais bem-sucedidos que se desdobram: Ílias recebe os artistas e os leva de uma parte a outra, em que também veem um Rio cru – na quarta, um tiroteio na Cidade de Deus impediu que algumas crianças pudessem ensaiar com Fabiano. O transporte delas também é uma questão a resolver, ainda sem apoio

Tudo foi acontecendo muito rápido, graças ao interesse do Aldo Mussi ( presidente do Teatro Municipal ) e do André Heller-Lopes ( diretor artístico ). Mas ainda temos que aprender algumas coisas.  No concerto do Grigolo, por exemplo, tivemos o azar de marcar a data no mesmo dia e hora da final da Copa América entre Brasil x Peru. Aquilo foi um tremendo engano – conta Ílias, sorrindo. Mesmo assim, o recital teve bom público

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A Stefan cabe conversar com possíveis parceiros e chefiar a divulgação — já foi visto até entregando filipetas dos recitais dentro do Municipal. Caso tenha continuidade, está previsto trazer Kaufmann em 2021

Por enquanto, estamos fazendo isso com nossos bolsos e procurando parceiros. Nosso compromisso é segurar o projeto até novembro de 2020 e então reavaliar o que conseguimos — diz Ílias, que diz já ter rechaçado propostas para levar os recitais a São Paulo. – Tem que ser no Rio

Aventuras de Munique a Tessalônica Formado em Direito e Arte em Munique, na Alemanha, o grego está acostumado a empreitadas ousadas. Depois de trabalhar na Ópera da Baviera, naquela cidade, Ílias recebeu o convite para assumir uma sala de concertos em Tessalônica, no seu país natal. Aceitou, com a condição de poder montar óperas, o que obrigou a instituição a escavar o fosso para a orquestra

Foi uma loucura, mas deu tão certo que a Ópera Nacional da Grécia parou de visitar Tessalônica nas suas turnês nacionais. Aí, em 2006, eles decidiram me contratar

Em 2010, Ílias foi convidado por Lissner para ser diretor de elenco do La Scala, sob protestos de boa parte do mundo lírico italiano, que não aceitava que o cargo fosse ocupado pela primeira vez por um estrangeiro. Mesmo assim, revelou-se um descobridor de cantores antes da fama. Assim foi com o tenor americano Bryan Hymel e a georgiana Anita Rachvelishvilli, mas seus olhos se enchem de orgulho pela recente descoberta da soprano Pretty Yende, que catapultou da África do Sul para o Metropolitan de Nova York. Acredita que o oportunidade de trazer uma soprano negra para ir às escolas públicas do Rio será um enorme motor de inspiração

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– O que impressiona em Ílias é a confiança que ele conquista com os cantores, que são pessoas muitas vezes inseguras. Ele tem os principais cantores líricos do mundo na ponta dos dedos, e os convence justamente por essa confiança – conta Carlo Maria Cella, crítico musical italiano e ex-diretor de Comunicação do Scala de Milão. – Só se pode esperar coisas positivas dele

 

Por telefone ao GLOBO, o tenor Vittorio Grigolo confirma a impressão de Cella. Disse que, quando Ílias lhe fez o convite, sua primeira reação foi de surpresa. 

Mas é uma pessoa que sabe trabalhar, e eu sei disso por toda a nossa relação tanto no Scala quanto em Paris. A qualidade que ele dá às produções, ninguém consegue imitar. Topei na hora, à moda antiga: com papel em branco e um aperto de mão

A experiência com os alunos também foi marcante para o tenor Michael Fabiano, de 35 anos. Nascido na mesma Hoboken de onde saiu Frank Sinatra, Fabiano é dotado de uma voz que remete à força de Franco Corelli e à expressividade de seu professor, o americano Neil Shicoff, além de ter físico atlético necessário para as exigências da ópera moderna. Engajado, preside um fundação que leva seu nome, a qual contrata músicos desempregados para darem aulas em escolas públicas de Nova Jersey. Segundo ele, a ópera não é uma plataforma capaz de alcançar “a verdadeira massa crítica que transforma uma sociedade”

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Depois de uma enxurrada de abraços e selfies com as crianças do Rio, ele se remeteu à sua experiência própria como promotor de educação

Estou acostumado a ver alunos em Nova Jersey reclamando da infraestrutura de suas escolas. Aqui a situação é ainda mais carente, e no entanto o entusiasmo com as oportunidades é imenso. É pouco o que se pode fazer com a ópera, mas você percebe que as crianças querem se expressar e que sabem que estão diante de uma oportunidade diferente, especial

Fabiano tinha outros pensamentos a desenvolver, mas recebe o simpático conselho de Ílias

– É melhor você descansar um pouco. Seu concerto é no domingo

Grandes vozes in Rio  Vittorio Grigolo. Tenor e showman nato, cantou em julho. Será Werther em Viena e faz “La Traviata” em Nova York neste ano

 Lisette Oropesa. Soprano americana, será Manon ao lado de Fabiano em outubro, em NY . Canta no Municipal em 13 de outubro

 Hibla Gerzmava. Neste ano, a russa foi Desdêmona no “Otello” de Paris e faz “O trovador” em Madri. 15/11 no Municipal

 Sondra Radvanovsky. A soprano lírico-spinto americana, que debutou como Aída em 2018 em NY, está prevista para 2020

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