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Mafra. Após um roubo e 26 anos de abandono

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Depois de 26 anos votada ao abandono, a Capela de Nossa Senhora do Monte Carmo, na vila da Venda do Pinheiro, em Mafra, ganha uma nova vida

Depois de 26 anos votada ao abandono, a Capela de Nossa Senhora do Monte Carmo, na vila da Venda do Pinheiro, em Mafra, ganha uma nova vida.

«Numa das localidades com maior número de habitantes do concelho, existe uma quinta que data de 1700, sensivelmente, e tem sido pertença da família Canas. Nessa quinta, foi edificada uma capela com invocação inicial a Santo António no ano de 1732», começa por explicar Hélder Sousa Silva, presidente da autarquia, em funções desde 2013, destacando que o edifício tem quase 300 anos.

Nestas três centenas de anos de história, «esteve ao serviço da comunidade porque não havia igreja matriz e era ali que as pessoas celebravam as suas missas, os casamentos, os batizados, funerais e velórios», diz o antigo deputado do PSD, avançando que, com a construção da igreja, «este templo ficou encerrado e sem utilização».

No entanto, tinha uma: serviu a colónia de férias para os filhos dos funcionários da EDP. Mas nada mais do que isso. «Houve um diferendo entre a família e a fundação, reclamando a primeira obras de restauro e a segunda litigando em relação à EDP», explicita o político, esclarecendo que, há dois anos, a Câmara entrou em contacto com a família Canas e evidenciou a vontade de «adquirir o conjunto e ajudar a resolver a situação , pois dado o abandono do espaço, o mesmo começou a ser ocupado por alguns indigentes e era local de má frequência».

A «população indignava-se» e, no ano passado, as negociações tiveram um desfecho: a Câmara adquiriu o complexo. «De imediato, lançámos mãos, como primeira prioridade, à recuperação desta capela do século XVIII pelo valor que a mesma encerra do ponto de vista patrimonial, arquitetónico e religioso, assim como pela relação que tem com os habitantes». 

Painel roubado e a mensagem do Vaticano

Entre os anos de 2015 e 2020, foi roubado «um conjunto único de azulejos que, primeiro, foi vandalizado», sendo que a autarquia encetou esforços para recuperá-lo. 

Assim, foi feita queixa às autoridades e ao Ministério Público (MP) e, há cerca de um mês, quando já havia sido encomendada uma réplica do Adoração dos Pastores – em que os mesmos são testemunhas próximas do nascimento de Jesus, em Belém, episódio baseado no Evangelho de S. Lucas –, Hélder Sousa Silva recebeu a notícia de que a Polícia Judiciária, «numa das ações concertadas a nível europeu», havia detetado a obra de arte.

«Já pedimos a MP que nos devolva o painel para aplicarmos no local original e, deste modo, ficaremos com o conjunto de 16 painéis completo», sublinha, realçando que «o valor que todos nós lhe reconhecemos não diz respeito apenas a uma peça, mas sim a todas».

Além do processo de recuperação do painel, nesta sexta-feira, a autarquia recebeu uma mensagem do Vaticano, na pessoa do cardeal Gianfranco Ravasi, Presidente do Pontifício Conselho para a Cultura desde 2007.

«Saudou a iniciativa da Câmara, da paróquia da Venda do Pinheiro e de toda a comunidade», refere, lembrando que a cerimónia de reabertura e benção das novas imagens foi celebrada pelo bispo Daniel Henriques e, no domingo, a missa será presidida pelo cardeal-patriarca D. Manuel Clemente e será emitida pela TVI. «São dias de grande alegria porque restaurámos um templo que é devolvido à comunidade, recuperando o seu património azulejar e todo o edifício».

Por outro lado, a utilização da capela como lugar de culto junta-se à possibilidade do acolhimento de diversos eventos culturais, na medida em que terá um órgão que permitirá receber o Festival Internacional de Órgão de Mafra.

Tal objetivo prende-se com o facto de o município, desde 2017, não só de divulgar os órgãos históricos existentes no Palácio Nacional, como também os das igrejas do Gradil, Ericeira e Livramento. É de ressalvar que o Palácio Nacional de Mafra detém seis órgãos históricos, sendo que o restauro dos mesmos foi concretizado, em 2010, pelo mestre Dinarte Machado e distinguido com o Prémio Europa Nostra, da Comissão Europeia.

A requalificação da capela inseriu-se no projeto de reabilitação da Quinta de Santo António, que  engloba a construção de uma loja do cidadão, da sede da união de freguesias, o Venda Business Factory (que servirá de incubadora de empresas), o Espaço Juventude, um auditório com 250 lugares e a melhoria das zonas verdes.

«O investimento na aquisição foi de 1 milhão e 550 mil euros e na recuperação da capela investimos cerca de 700 mil euros». No conjunto edificado, onde nascerão os outros projetos, foram gastos 4 milhões de euros.   Para o professor e investigador Nuno André, que estudou o programa azulejar da capela, esta «tem uma grande profundidade teológica dado que o próprio programa propõe uma autêntica catequese que reflete a mística do lugar enquanto espaço sagrado». 

O professor de Educação Moral e Religiosa e doutorando em História evidencia que «a história deste templo podia ter acabado literalmente em ruínas ou, sendo adquirido por um privado ou pelo próprio Estado, haveria sempre o risco de matar o espaço reduzindo-o a um museu».

Como essa tendência foi contrariada, Nuno André avança que «aquilo que foi feito é um exemplo de respeito pela História, pela cultura, pela tradição e pela religiosidade de um povo que merece ver respeitada a sua identidade», adiantando que «é igualmente de louvar este respeito mútuo e esta relação entre Estado e Igreja em que nenhuma das partes oprime a outra».

«O lugar sagrado de qualquer que seja a religião deve ser respeitado enquanto espaço de encontro, pois neste lugar a Humanidade sacraliza o que está fora para depois despertar o que está dentro», transmite Nuno André, rematando que «são exemplos destes que podem contribuir para uma cultura e educação que promovam o respeito e a igualdade mas, acima de tudo, a paz».

Vai ao encontro da perspetiva do radialista Nunes Forte, que nasceu na Venda do Pinheiro em março de 1944. «Para a população, ver a capela onde muitos de nós fomos batizados, requalificada, é um misto de emoções que, por um lado, nos reportam às memórias do passado e, por outro, nos garantem a certeza de um futuro». «O próprio povo uniu-se nesta causa quando, por exemplo, diferentes particulares se juntaram para oferecer novas imagens para veneração dos fiéis», conclui o também  realizador, ator e produtor.