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Jornal The Guardian divulga primeiros nomes de alvos de espionagem pelo Pegasus

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Sem a análise forense de um dispositivo não é possível confirmar a tentativa ou infecção bem-sucedida pelo Pegasus. Movlamli disse que reconfigura regularmente o celular ou muda o dispositivo, então a análise não foi possível

O vazamento de dados telefônicos através do sistema Pegasus, desenvolvido pela NSO Group, de Israel, aponta que os alvos de espionagem ( mais de 50 mil números de telefone em mais de 45 países ) foram selecionados por clientes governamentais da empresa israelense. A informação foi publicada nesta segunda-feira pelo jornal The Guardian, que faz parte de um consórcio internacional de 17 veículos de comunicação, criado para divulgar a lista dos alvos de espionagem obtida pela ONG Forbidden Stories.

Na edição de hoje no The Guardian, alguns nomes de alvos do Pegasus foram divulgados. No Azerbaijão, do ditador Ilham Aliyev, vários ativistas aparecem nos dados. Alguns tiveram sua correspondência pessoal ou fotos íntimas publicadas online ou na televisão.

Ativistas femininas costumam ser alvos de vazamento de material de cunho sexual. Em um caso flagrante, em 2019, fotos íntimas da ativista da sociedade civil e jornalista Fatima Movlamli, então com 18 anos, vazaram para uma página falsa do Facebook.

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Não está claro como as fotos foram obtidas, e Movlamli acredita que seus dados privados foram acessados quando a polícia apreendeu seu telefone durante um interrogatório violento e a forçou a desbloqueá-lo. O número dela também constava dos autos obtidos pelo consórcio.

Sem a análise forense de um dispositivo não é possível confirmar a tentativa ou infecção bem-sucedida pelo Pegasus. Movlamli disse que reconfigura regularmente o celular ou muda o dispositivo, então a análise não foi possível.

Na Índia, os números de uma variedade de ativistas foram encontrados nos dados vazados.

Umar Khalid, um estudante ativista da Universidade Jawaharlal Nehru, em Delhi, e líder da União Democrática de Estudantes, virou alvo de espionagem pouco antes de acusações de sedição serem movidas contra ele. O estudante foi preso em setembro de 2020, sob a acusação de organizar motins, e a polícia apresentou provas contra ele que incluíam mais de 1 milhão de páginas de informações coletadas de seu celular, sem deixar claro como esses dados tinham sido obtidos. Ele está na prisão aguardando julgamento.

O número de celulares de escritores, advogados e artistas que defendem os direitos das comunidades indígenas também constam dos dados. Membros da rede foram presos nos últimos três anos e acusados de crimes de terrorismo, incluindo conspiração para assassinar o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi. A rede incluía um padre jesuíta de 84 anos, Stan Swamy, que morreu este mês após contrair Covid-19 na prisão.

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Os registros mostram que várias pessoas acusadas de serem cúmplices de Swamy, incluindo Hany Babu, Shoma Sen e Rona Wilson, foram selecionadas como alvo do Pegasus nos meses anteriores e nos anos após suas prisões.

Loujain al-Hathloul, a mais proeminente ativista pelos direitos das mulheres na Arábia Saudita, virou um desses alvos poucas semanas antes de seu sequestro, em 2018, nos Emirados Árabes Unidos, tendo sido forçada a retornar à Arábia Saudita, onde acabou presa por três anos e supostamente torturada. Acredita-se que Hathloul foi indicada para ser espionada pelos Emirados Árabes Unidos, um conhecido cliente da NSO e aliado próximo da Arábia Saudita.

Apesar de sua libertação da prisão em fevereiro de 2021, a ativista saudita não tem permissão para falar com jornalistas ou circular livremente no país e ainda está sujeita à proibição de viajar. Seu telefone celular não pôde ser obtido ou testado para evidências de que havia sido infectado ou hackeado.

Segundo Hala al-Dosari, uma ativista saudita baseada nos EUA, que se comunicou com Hathloul antes de sua prisão em 2018, as autoridades sauditas obtiveram informações não públicas sobre pagamentos diários de cerca de 50 euros que foram feitos a Hathloul em conexão com sua defesa, possivelmente por meio de seu telefone celular.

PUBLICIDADE No México, os dados mostram uma ampla seleção de ativistas, advogados e defensores de direitos humanos, incluindo Eduardo Ferrer Mac-Gregor Poisot, um juiz que foi presidente do Tribunal Interamericano de Direitos Humanos; e Alejandro Solalinde, um padre católico defensor dos direitos de migrantes.

Solalinde disse acreditar que o governo mexicano anterior estava “procurando algo para prejudicar minha reputação e usar como chantagem” devido ao seu apoio a um rival político, e disse que havia sido avisado por um ex-funcionário da agência nacional de inteligência (Cisen) de que estava sob vigilância.

Advogados em risco de vigilância

Advogados também aparecem nos dados vazados. Rodney Dixon, um proeminente defensor que atua em Londres e assumiu vários casos importantes ligados a questões de direitos humanos, virou alvo de espionagem em 2019. A análise forense de seu dispositivo mostrou atividade relacionada ao Pegasus, mas nenhuma infecção bem-sucedida.

Seus clientes incluem Matthew Hedges, um estudante de doutorado britânico, preso nos Emirados Árabes Unidos; e Hatice Cengiz, a noiva do jornalista saudita assassinado Jamal Khashoggi. Ela também foi atacada com Pegasus, com exames forenses mostrando evidências de uma infecção bem-sucedida.

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Dixon disse: “Ninguém deve ser alvo desta forma. Para os advogados, é particularmente preocupante, pois viola os princípios fundamentais do privilégio e da confidencialidade do advogado-cliente, que são fundamentais para processos judiciais justos”.

A análise forense no telefone do advogado de direitos humanos francês Joseph Breham mostra que ele também foi infectado várias vezes com o Pegasus, em 2019, e os registros vazados sugerem que ele estava sendo espionado pelo Marrocos.

“Não há justificativa possível para um Estado estrangeiro ouvir um advogado francês. Não há justificativa em nível legal, ético ou moral”, disse ele.

Um porta-voz do governo indiano disse que “as alegações sobre a vigilância do governo sobre pessoas específicas não têm qualquer base concreta ou verdade associada a elas”. Os governos de Marrocos, Azerbaijão e México não se pronunciaram, segundo The Guardian.

O Grupo NSO afirmou que cortará clientes se fizerem mau uso do Pegasus. Em resposta ao consórcio, negou que os registros vazados fossem evidências de espionagem com o sistema e disse que “continuará a investigar todas as alegações de uso indevido e tomar as medidas cabíveis com base no resultado dessas investigações”.

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